Como muitas pessoas neste país, tenho acompanhado o desenvolvimento das investigações sob a morte de Isabella Nardoni. Difícil, muito difícil acreditar no que o pai, Alexandre Nardoni, contou inicialmente: de que colocou a menina para dormir, trancou a porta, desceu, alguém entrou (ou já estava) no apartamento, pegou a menina e a jogou pela janela. Assim que essa versão começou a ser desmontada, veio a tentativa de Alexandre Nardoni de envolver pessoas, como o pedreiro do condomínio. Falei no plural porque quando acusar o pedreiro também não colou, veio a história de que a portaria (leia-se, portanto, o[s] porteiro[s]) tinha uma cópia da chave do apartamento, o que também foi por terra quando o condomínio declarou que isso aconteceu apenas enquanto o prédio estava em construção.
Com tanta inconsistência, entram os advogados na jogada e vem a notícia de que sua esposa, Anna Carolina Jatobá, tinha perdido a chave do apartamento, mas depois já não tinha sido ela, mas ele. Toda essa montagem é muito primária. Ainda que fosse verdade a história de se ter perdido a chave, imagine isso acontecendo em uma cidade do tamanho de São Paulo. Daí, alguém a encontra, por poderes extra-sensoriais (não tem outro jeito, a não ser que com a chave se deixe também o endereço completo) descobre exatamente de onde ela é, entra sorrateiramente no prédio, vai ao seu apartamento, joga sua filha pela janela e depois vai embora como se nada tivesse acontecido… Mas agora também não é bem assim, pois Alexandre disse que provavelmente foi alguém do prédio com quem ele tem desafeto. Imagine, eles haviam se mudado uma semana antes desse episódio. Para completar, peritos encontraram a tesoura que provavelmente cortou a tela (será que há impressões digitais nela?), vestígios de sangue no carro em que chegaram todos no sábado, na maçaneta da porta (será que há impressões digitais nela também?), no hall de entrada do apartamento, na cama de um dos filhos do casal e na tela de proteção da janela. Para complicar mais a história, também foram encontradas manchas de sangue no apartamento vazio da irmã de Alexandre, que fica no mesmo andar que o dele, e a roupa que ele usava naquele dia foi encontrada no banheiro do apartamento vazio… Uma outra coisa me intriga nesse processo todo: em um prédio como aquele não havia câmera interna na entrada da garagem, na garagem ou no elevador?
Após emissão do pedido de prisão temporário, ambos estão atrás das grades agora. Não creio que tenha havido intenção de matar a menina, se realmente um ou ambos estão envolvidos, porque ter intenção envolve planejamento, tentativas realmente sérias de desaparecer com evidências e montagem de uma versão única e imutável para camuflar o que realmente ocorreu, mas não é isso o que está acontecendo. Por um lado, me pergunto o que temos a ver com tudo isso? Por outro, é difícil não se sentir tocado.
A morte pode ter sido acidental, mas o que se seguiu a ela, não. Criança tem constituição física e psicológica muito delicada. Tudo nela ainda está em formação, inclusive personalidade, noção de certo e errado, aprendizado sobre em quem se deve ou não confiar (no pai e na mãe teoricamente se deve confiar). Por algum motivo, com base no que foi divulgado até ontem, porque agora tudo será mantido em segredo de justiça, houve violência contra Isabella antes, quer dizer, todos aspectos anteriores foram desconsiderados. Não ter intenção de matar e acabar matando não quer dizer que não se deva haver punição, mas também acho radical ouvir as pessoas gritando “assassino, assassina” para o pai e a madrasta. Eles se meteram em uma fria muito grande e se são mesmo culpados, imagine a angústia e o peso que estão carregando.
A madrasta, não sei, mas o pai estava no enterro ao lado da mãe de Isabella. Ele ficou lá, chorando, creio que realmente sentindo, desculpe-me a expressão, a merda irreversível que havia feito caso tenha culpa. Imagine o que foi dar adeus para aquela menina linda – que agora vemos nas fotos divulgadas na internet ao lado da mãe, passeando, abraçando, curtindo, tendo a vida inteira pela frente – sabendo-se responsável por destruir tudo isso, por causar tanta dor às pessoas. A verdade é que essa história toda é de causar mal-estar em qualquer um e por envolver criança ela se torna mais forte ainda, há muita emoção envolvida.
Espero mesmo que tudo isso se esclareça, que a justiça dê conta do recado e que Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella, encontre forças para continuar a viver com aquela alegria estampada nas fotos com a filha. Parece-me que ela ainda está em transe, vivendo um pesadelo que parece que acabará daqui a pouco, mas não irá… Perder um filho é ferida que não cicatriza, que não deixa de sangrar, de incomodar. Na verdade, todos os envolvidos diretos – mãe, avós maternos e paternos, tios, tias, primos – precisam de muita força. Os que lhe são próximos podem lhes proporcionar o conforto de uma conversa, um abraço, um olhar carinhoso, um passeio, um almoço de domingo, coisas simples assim. A nós, que acompanhamos tudo a distância, resta oferecer-lhes nossas orações, não importa que religião ou não religião professemos. Incluamos também nessas boas vibrações o pai e a madrasta de Isabella. Eles também estão sofrendo, independemente do que tenham ou não feito. E, por fim, vamos oferecer a essa menina que nos era desconhecida enquanto feliz, o melhor de nossa energia ao se tornar nossa conhecida por meio dessa tragédia irreparável.
Descanse em paz, Isabella, e que seus últimos minutos neste planeta lhe sejam apagados da memória. Você definitivamente não precisa se lembrar deles.