Uma das coisas que mais curto é ouvir as histórias que as pessoas têm para contar. E é muito bom quando encontro alguém que tem uma bem interessante para contar, como aconteceu ontem. Era uma reunião de trabalho com um possível prestador de serviço, com quem encontrei pela primeira vez, mas que antes de se despedir me contou o seguinte: com a guerra na Europa, na década de 1940, seus avós, que eram judeus, temerosos que ela chegasse a Portugal, onde moravam, enviaram sua mãe para viver na Ilha Madeira. Para manter a tradição, esperavam que ela se casasse com um judeu também, mas isso não aconteceu: seu coração não se deixou limitar por essa imposição e ela escolheu um outsider. Movidos pelo medo dos nazistas, Joaquim e Ana (nomes fictícios) decidiram deixar a Europa, vieram para o Brasil e se estabeleceram em Maceió, onde fincaram raízes, aumentaram a família e trabalharam muito, juntos, por quase 50 anos.
Um dia, aos 88 anos, Joaquim sentiu-se mal e foi hospitalizado. Diagnosticado com pneumonia, morreu dois dias depois sem que Ana tivesse tido tempo de se despedir… No sétimo dia de sua morte, quando todos se preparavam para participar da missa em sua homenagem, Ana, que havia acabado de fazer seu check-up, que não havia apontado nenhum problema, não aguentou de saudade e foi embora também, talvez na esperança de encontrar seu “velho”, seu único e grande companheiro de existência.
Extremamente vaidosa em vida, não saía de casa sem se arrumar, sem que os cabelos estivessem penteados, a boca pintada com o batom suave e a pele levemente coberta de pó de arroz. A morte lhe tirou o viço e a beleza e deixou-a de um jeito que ela odiaria ser vista por alguém. Em respeito a isso, seu filho pediu que o caixão fosse lacrado e sobre ele deixou uma de suas fotos favoritas, mais jovem, sorridente.
Ana também não gostava de dizer sua idade, não queria que soubessem quantos anos tinha. Ficava mau humorada quando lhe perguntavam sobre isso e, se obrigada a dizer, sempre mentia, tirando uns oito anos de sua certidão de nascimento. Ela mentia até para a família e certamente odiaria se as pessoas acabassem descobrindo a verdade. Para preservá-la e como sua última homenagem, seu filho optou por não colocar a data de seu nascimento na lápide, apenas o de sua morte.
Fiquei olhando para aquele homem agora grisalho à minha frente, cujos olhos marejaram ao finalizar a história. Continuei em silêncio, pois não sabia mesmo o que dizer. Ele pediu mais água e eu me afastei do bebedouro para que ele pudesse alcançá-lo. Naquele momento, fomos interrompidos pelo diretor da empresa que voltava do almoço. A conversa tomou outro rumo, mas ao nos despedirmos já não cabia mais o aperto de mão formal de minutos antes. Beijamo-nos no rosto e eu o acompanhei até o portão, guardando com imenso carinho aqueles minutos de compartilhamento que acabei de dividir com você.