Nos Estados Unidos o voto não é obrigatório e a disputa política entre os senadores Barack Obama e Hillary Clinton, do partido Democrata, levou muitos eleitores a tomarem uma posição. A disputa entre os dois para saber quem será o indicado para concorrer com o indicado do partido Republicano, John McCain, na eleição que acontece em novembro deste ano, está quase no fim. E os democratas poderiam estar em uma posição muito mais favorável graças à insatisfação da maioria dos americanos com a gestão George W. Bush.
O problema é que parece que escolheram mal seus candidatos. Não com relação a questões éticas ou carismáticas, mas ao aspecto cultural. Por mais impopularidade que o governo Bush enfrente, os democratas correm o risco de não tirar proveito disso porque o país é separatista, a maioria dos brancos e negros não se mistura no cotidiano. Isso está na raiz da história americana e foi responsável pela Guerra de Secessão entre 1861 e 1865.
E mexer com questões culturais é bastante complicado, as mudanças são muito lentas, o que dificulta a candidatura de Obama. Do outro lado, está a típica americana branca de olhos azuis, Clinton, só que ela também enfrenta outro tipo de problema: é mulher em um país de base protestante, que reconhece direitos femininos até certo ponto. Ter uma mulher como chefe de Estado à frente do país mais poderoso do mundo é outra história.
Há dois meses o jornal online Los Angeles Times publicou o resultado de uma pesquisa sobre a preferência do eleitor: entre McCain (homem e branco, diga-se de passagem) e Clinton, 46% para ele e 42% para ela; entre McCain e Obama, 44% e 42%, respectivamente. Os democratas ainda não bateram o martelo com relação ao seu candidato, mas independentemente do escolhido, o candidato republicano tem preferência entre parcelas importantes dos eleitores que, mesmo discordando da linha dos republicanos, certamente não se sentem confortáveis em ter um negro ou uma mulher na presidência.
Essa poderia ter sido uma eleição relativamente fácil para os democratas, mas parece que o partido errou estrategicamente e talvez pague um preço muito alto por isso. Não se pode desconsiderar o histórico racista e preconceituoso do país que eles dizem conhecer e ter condição de liderar. Há indícios de mudança, claro, prova disso é que há negros e mulheres – ou os dois – em posições relevantes, como é o caso da poderosa Condeleezza Rice, mas isso ainda tem caráter de exceção.
O mundo está de olho nessa eleição, torcendo para que a política externa “bushiana” termine. Internamente, a maioria dos americanos também sonha com mudanças. Agora, se o candidato democrata vencer, sua vitória deverá ser duplamente comemorada, pois terá quebrado uma barreira cultural que parecia intransponível e que sinalizará mudanças em níveis muito mais profundos do que a simples escolha de um candidato à presidência.
