Estamos em 2008 e assistimos nos noticiários de todo o mundo às reportagens sobre os conflitos entre tibetanos e chineses e também às manifestações de apoio à causa do Tibet. A revolta que se alastrou por Lhasa foi como um vulcão que entrou em erupção de forma inesperada, um grito de “não aguento mais!” Os chineses mostraram as imagens da quebradeira efetuada pelos tibetanos, tirando proveito da situação, colocando-se como “coitadinhos” atacados por “baderneiros violentos”, que não tinham motivo para isso, liderados por um “instigador”, o 14º Dalai Lama. A imagem da China não pode ser arranhada a tão poucos meses para o início das Olimpíadas, por isso, seu governo fará todo o possível para não deixar que isso aconteça.
De repente, penso sobre a invasão chinesa ao Tibet na década de 1950. Diferentemente do que fizeram agora com os tibetanos nas ruas de Lhasa, nenhuma imagem daquela época foi mostrada pelos chineses. A destruição de mais de seis mil monastérios e as milhares de mortes, torturas e prisões infligidas a monges e monjas e também ao resto da população, como forçar histerectomia para evitar novos nascimentos ou as humilhações impostas à população subjugada, tudo isso é negado pelos chineses. Essa violência por eles impetrada é mantida a sete chaves, mas na primeira oportunidade que têm de se fazer de vítimas, eis que estão tirando proveito dela.
Seja como for, a questão é que a rivalidade entre esses dois países não começou com a invasão nos anos 50, mas bem antes disso, por volta de 630. O Tibet não era essa nação empobrecida e enfraquecida que vemos hoje, mas também era capaz de invadir e atacar seu vizinho, a China. Era ora um, ora outro tomando a iniciativa de mostrar seu poder, invadindo e matando civis e militares do inimigo. Até a fuga do atual Dalai Lama não foi novidade na história. Em 1910, sob domínio chinês, o 13º Dalai Lama teve de fugir do Tibet também, retornando em 1913, quando o país declarou sua independência da China após atacar seu exército. Naquela época, em seu retorno, o Dalai Lama afirmou: “Somos um país pequeno, religioso e independente”. Mas as coisas não foram bem assim.
Como se não bastasse, a Inglaterra – que tentava dominar a Índia – ocupou Lhasa em 1904 e tentou forçar um acordo entre Tibet, China e Inglaterra, mas os chineses se negaram a fazê-lo, afirmando que tinham soberania sobre o Tibet. Pressionada, a Inglaterra não conseguiu manter seu apoio ao Tibet, uniu-se à Rússia e ambos assinaram acordo de só fazerem negócios com os tibetanos via China, que foi se fortalecendo cada vez mais, formando novas alianças, investindo em tecnologia, exercendo cada vez mais poder no mundo moderno, impondo-se, ainda que usando violência, enquanto o Tibet foi ficando isolado, tecnologicamente atrasado, sem nada a oferecer ao mundo capitalista.
Vendo-se em desvantagem, ainda sob jugo chinês, entre 1947 e 1949 Lhasa enviou missões comerciais para Índia, China, Estados Unidos e Inglaterra em uma tentativa de se fazer reconhecer como nação. O Tibet precisava do aval de outras nações para conseguir declarar sua independência mais uma vez, mas nenhuma delas respondeu como esperado. Logo a seguir, em 1950, parece que cansada desse vai-e-vém e a fim de mostrar quem realmente mandava, a China invadiu o Tibet pela última vez, resultando no que vemos hoje. Em 1959, o atual Dalai Lama foi obrigado a fugir para a Índia, estabelecendo o governo de seu país no exílio, na cidade de Dharamsala.
Apesar de todas as tentativas feitas nesses quase 50 anos, nenhuma nação o recebe como líder político, apenas como líder religioso. Parece que o pensamento político/comercial é com relação ao quê o Tibet tem a contribuir com o mundo moderno. Veja, essa não é minha crítica pessoal, mas uma reflexão diante dos fatos e dos valores dessa cultura capitalista na qual estamos imersos.
Pessoas no mundo todo colocam a China como algoz e o Tibet como vítima e a imprensa contribui com isso, pois nãoinforma realmente o que há por trás dessa inimizade, desse conflito que tem uma história de séculos.
Se voltarmos no tempo, veremos que a rivalidade entre esses dois países foi sendo construída, com responsabilidade dos dois lados, até que o mais forte venceu. Isso não significa que a violência seja justificada, porém. Mas o que me pergunto é: será que se o Tibet tivesse tido apoio de outros países e armas para lutar, ele não as estaria usando em nome da autodefesa? Conjecturas, apenas. O que me cansa muito é ver essa parcialidade com a qual as coisas são mostradas pela imprensa, sempre com esse maniqueísmo incansável – um bonzinho e uma vítima, Deus e o diabo. E as pessoas abraçam uma causa de forma inconsciente sem refletir sobre todo o processo, tirando a responsabilidade do que está dominado, como se tivesse sido sempre assim. Além do mais, sob o olhar budista de que toda ação gera uma reação independentemente de quando foi feita, não seria o caso de os seguidores do budismo tibetano pararem e se perguntarem sobre o porquê dessa situação, em vez de colocarem ou aceitarem que se coloque mais lenha na fogueira? E depois, por que não continuarem a viver sem ranços, desapegados do que quer que tenha acontecido?
Parabéns a jornalista Aman pelo blog. Está cada vez mais difícil vermos blogs com conteúdo descentes pra se ler. na maior parte são babaquices que não trazem acréscimo algum.
Vida longa ao Blog da Aman
Margarida Nepomuceno