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UMA HISTÓRIA QUE OUVI

Uma das coisas que mais curto é ouvir as histórias que as pessoas têm para contar. E é muito bom quando encontro alguém que tem uma bem interessante para contar, como aconteceu ontem. Era uma reunião de trabalho com um possível prestador de serviço, com quem encontrei pela primeira vez, mas que antes de se despedir me contou o seguinte: com a guerra na Europa, na década de 1940, seus avós, que eram judeus, temerosos que ela chegasse a Portugal, onde moravam, enviaram sua mãe para viver na Ilha Madeira. Para manter a tradição, esperavam que ela se casasse com um judeu também, mas isso não aconteceu: seu coração não se deixou limitar por essa imposição e ela escolheu um outsider. Movidos pelo medo dos nazistas, Joaquim e Ana (nomes fictícios) decidiram deixar a Europa, vieram para o Brasil e se estabeleceram em Maceió, onde fincaram raízes, aumentaram a família e trabalharam muito, juntos, por quase 50 anos.

Um dia, aos 88 anos, Joaquim sentiu-se mal e foi hospitalizado. Diagnosticado com pneumonia, morreu dois dias depois sem que Ana tivesse tido tempo de se despedir… No sétimo dia de sua morte, quando todos se preparavam para participar da missa em sua homenagem, Ana, que havia acabado de fazer seu check-up, que não havia apontado nenhum problema, não aguentou de saudade e foi embora também, talvez na esperança de encontrar seu “velho”, seu único e grande companheiro de existência.

Extremamente vaidosa em vida, não saía de casa sem se arrumar, sem que os cabelos estivessem penteados, a boca pintada com o batom suave e a pele levemente coberta de pó de arroz. A morte lhe tirou o viço e a beleza e deixou-a de um jeito que ela odiaria ser vista por alguém. Em respeito a isso, seu filho pediu que o caixão fosse lacrado e sobre ele deixou uma de suas fotos favoritas, mais jovem, sorridente.

Ana também não gostava de dizer sua idade, não queria que soubessem quantos anos tinha. Ficava mau humorada quando lhe perguntavam sobre isso e, se obrigada a dizer, sempre mentia, tirando uns oito anos de sua certidão de nascimento. Ela mentia até para a família e certamente odiaria se as pessoas acabassem descobrindo a verdade. Para preservá-la e como sua última homenagem, seu filho optou por não colocar a data de seu nascimento na lápide, apenas o de sua morte.

Fiquei olhando para aquele homem agora grisalho à minha frente, cujos olhos marejaram ao finalizar a história. Continuei em silêncio, pois não sabia mesmo o que dizer. Ele pediu mais água e eu me afastei do bebedouro para que ele pudesse alcançá-lo. Naquele momento, fomos interrompidos pelo diretor da empresa que voltava do almoço. A conversa tomou outro rumo, mas ao nos despedirmos já não cabia mais o aperto de mão formal de minutos antes. Beijamo-nos no rosto e eu o acompanhei até o portão, guardando com imenso carinho aqueles minutos de compartilhamento que acabei de dividir com você.

Política da ignorância

Faz muito tempo, muito tempo mesmo que escrevi o último post. Como faz falta ter mais tempo para escrever… Mas hoje não consegui aguentar, preciso manifestar publicamente minha indignação com a história dessa brasileira que se deu mal na Suíça e a reação do governo brasileiro.

Esse Celso Amorim serve para que mesmo? Para falar bobagem e depois não ter a hombridade de dizer que se precipitou, que ofendeu erroneamente o governo suíço e o partido SVP e que fez isso porque precisava defender uma cidadã brasileira que parecia ter sido vítima de um ato de violência? É para isso que ele é ministro das Relações Exteriores?

Que o pai da Paula Oliveira continue afirmando que ele não tem motivos para duvidar de sua filha, que é linda e maravilhosa, tudo bem, é outra história. Agora, nosso representante para lidar com questões que envolvem o bom relacionamento com outros países ter o nível de ignorância que o Celso Amorim está demonstrando é difícil de engolir.

Geralmente, choca-me a falta de modéstia dos políticos brasileiros, como se estivessem sempre acima do bem e do mal, como se não pertencessem à raça humana. Errar é humano, todos nós erramos. Precipitar-se nas conclusões também é humano, todos nós fazemos isso em vários momentos da vida. Agora, não ter humildade de assumir que exagerou e que cometeu um erro, principalmente quando a imagem do Brasil já está pra lá de arranhada é, no mínimo, lamentável.

Estou envergonhada pela diplomacia brasileira (isso porque nem quero comentar sobre nosso presidente, coitado…). Eu teria ficado orgulhosa, muito orgulhosa mesmo, se esse ministro que me representa tivesse sido menos arrogante, se tivesse descido de seu pedestal e admitido que errou, pedindo desculpas publicamente, da mesma forma que jogou pedras, ao governo suíço e a todos os envolvidos nesse embrólio. Mas, não, ele prefere continuar falando bobagem e piorando as coisas para o Brasil, sujando ainda mais nossa imagem e ficando tão antipatizado lá fora quanto aqui. Ele virou uma marionete nas mãos dessa jovem, que precisa urgentemente de ajuda psiquiátrica, e não se posiciona como deveria, com a responsabilidade que o cargo exige.

Caros suíços, se o governo brasileiro não o faz, eu, ainda que em minha insignificância, peço-lhes desculpas por toda essa confusão e pelas inverdades e ofensas dirigidas ao seu país. Não deixem que a mentira de Paula e a empáfia de Celso Amorim prejudiquem o relacionamento entre Brasil e Suíça, por mais distante e superficial que ele seja. Pelas reações aqui, a maioria não aprova a atitude desses dois (nem a da mídia nem a de outras “otoridades” brasileiras).

Nos Estados Unidos o voto não é obrigatório e a disputa política entre os senadores Barack Obama e Hillary Clinton, do partido Democrata, levou muitos eleitores a tomarem uma posição. A disputa entre os dois para saber quem será o indicado para concorrer com o indicado do partido Republicano, John McCain, na eleição que acontece em novembro deste ano, está quase no fim. E os democratas poderiam estar em uma posição muito mais favorável graças à insatisfação da maioria dos americanos com a gestão George W. Bush.

O problema é que parece que escolheram mal seus candidatos. Não com relação a questões éticas ou carismáticas, mas ao aspecto cultural. Por mais impopularidade que o governo Bush enfrente, os democratas correm o risco de não tirar proveito disso porque o país é separatista, a maioria dos brancos e negros não se mistura no cotidiano. Isso está na raiz da história americana e foi responsável pela Guerra de Secessão entre 1861 e 1865.

E mexer com questões culturais é bastante complicado, as mudanças são muito lentas, o que dificulta a candidatura de Obama. Do outro lado, está a típica americana branca de olhos azuis, Clinton, só que ela também enfrenta outro tipo de problema: é mulher em um país de base protestante, que reconhece direitos femininos até certo ponto. Ter uma mulher como chefe de Estado à frente do país mais poderoso do mundo é outra história.

Há dois meses o jornal online Los Angeles Times publicou o resultado de uma pesquisa sobre a preferência do eleitor: entre McCain (homem e branco, diga-se de passagem) e Clinton, 46% para ele e 42% para ela; entre McCain e Obama, 44% e 42%, respectivamente. Os democratas ainda não bateram o martelo com relação ao seu candidato, mas independentemente do escolhido, o candidato republicano tem preferência entre parcelas importantes dos eleitores que, mesmo discordando da linha dos republicanos, certamente não se sentem confortáveis em ter um negro ou uma mulher na presidência.

Essa poderia ter sido uma eleição relativamente fácil para os democratas, mas parece que o partido errou estrategicamente e talvez pague um preço muito alto por isso. Não se pode desconsiderar o histórico racista e preconceituoso do país que eles dizem conhecer e ter condição de liderar. Há indícios de mudança, claro, prova disso é que há negros e mulheres – ou os dois – em posições relevantes, como é o caso da poderosa Condeleezza Rice, mas isso ainda tem caráter de exceção.

O mundo está de olho nessa eleição, torcendo para que a política externa “bushiana” termine. Internamente, a maioria dos americanos também sonha com mudanças. Agora, se o candidato democrata vencer, sua vitória deverá ser duplamente comemorada, pois terá quebrado uma barreira cultural que parecia intransponível e que sinalizará mudanças em níveis muito mais profundos do que a simples escolha de um candidato à presidência.

O Brasil – e todos os países participantes do festival de Cannes 2008 – foi surpreendido pela Palma de Ouro de melhor atriz para Sandra Corveloni, atriz de teatro que fez seu primeiro papel no cinema nesse filme, Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Desconhecida, ausente do glamour do festival por estar em recuperação após ter perdido seu bebê no quinto mês de gestação, Sandra abocanhou o prêmio que tinha como favoritas Angelina Jolie e Catherine Deneuve.

Hoje, ela já estava no programa da Ana Maria Braga e terá de aprender a lidar com essa saída tão rápida do anonimato. Um prêmio a ser comemorado por todos os brasileiros, pois é nosso país sendo destacado em um campo do qual pouco se houve falar aqui, pois atividades culturais não são valorizadas como deveria e acontecem aos trancos e barrancos sem contar com o apoio que deveria das iniciativas pública e privada. Além disso, muito do que é produzido fica longe do acesso da maioria das pessoas. Lá fora, o Brasil ainda é visto como tupiniquim, mais uma razão para celebrarmos a Palma de Ouro.

Em 1986, Fernanda Torres tornou-se a primeira brasileira a receber o mesmo prêmio por sua atuação em Eu sei que vou te amar, dirigido por Arnaldo Jabor. Com essa premiação, volto a acreditar que em Cannes parece que as cartas não estão marcadas. Parabéns a Sandra, ao Walter e Daniela e a todos que participaram da produção. E para nós, é só esperarmos um pouquinho para vermos a atuação da melhor atriz de Cannes 2008 nas telas dos nossos cinemas.

(Leia mais e veja foto de Sandra Corveloni em http://cinema.terra.com.br/cannes/2008/interna/0,,OI2907937-EI11459,00-A+revelacao+brasileira+Sandra+Corveloni+consagrada+em+Cannes.html)

Este ano publiquei em minha página no portal Extremos o artigo “Idade não precisa rimar com debilidade” (www.extremos.com.br/artigos/AmanMorbeck/080206.asp). Nele, como o título indica, abordo a questão de que envelhecer não significa se negar a viver. E semana passada, li dois textos que reforçaram essa minha postura diante do envelhecimento: um senhor de 98 anos que se casou em Mato Grosso do Sul e as celebridades que se negam a se submeter a euforia do “forever young”.

A história de Antenor Francisco de Oliveira, o Antenor Maricota, de 98 anos, me emocionou. Viúvo há 15 anos, ele se casou com a “jovem” Ana Vilela da Silva, de 60 anos, na cidade de Paranaíba. Os dois se conheciam desde o tempo em que moravam em fazendas no interior do Estado. Ele tem oito filhos, ela tem quatro; ele ainda dirige, pesca com os filhos e gosta de fazer palavras-cruzadas. O que me encantou foi a vontade dos dois, mas especialmente dele, por conta de ter quase cem anos, de ainda compartilhar, de se sentir vivo, ativo, com possibilidade de começar uma vida nova. Para Ana, a idade de Antenor não foi empecilho para também iniciar um novo momento em sua vida. Acho isso muito lindo porque em uma sociedade que tudo oferece aos jovens, bonitos e saudáveis e condena o que perde o viço da pele lisa e da barriga tanquinho, pessoas assim simplesmente dizem um sonoro não a esses valores. Um brinde aos noivos! E que sejam felizes pelos anos que ainda têm. Que continuem vendo TV juntos, de mãos dadas, se “carinhando” por muitas noites ainda. E que a energia liberada por esse gesto de carinho e aceitação, afete positivamente este mundo ainda tão cheio de pessoas com valores preconceituosos.

(Veja a foto do casal e a notícia em http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL426612-5598,00-HOMEM+DE+ANOS+CASA+COM+MULHER+DE+EM+MS.html – 25/04/2008)

A outra matéria, Lindas e em paz com as rugas, saiu na revista Época sobre algumas atrizes (Malu Mader, Christiani Tricerri, Denise Fraga, Karin Rodrigues, entre outras) que têm optado por não se submeterem a cirurgias plásticas ou aplicações de botox. É muito raro de se ver algo assim, principalmente no meio artístico. (E é incrível como essa neura é mais cobrada das mulheres que dos homens. Eles podem ter cabelos brancos, rugas, marcas da idade, mas as mulheres, não.) Atrizes européias não compram essa idéia, basta ver, por exemplo, aquelas que trabalham em filmes do Almodóvar. Mas nós, no Brasil, somos muito mais influenciadas pelos valores de Barbie, basta ver quantas pintam o cabelo de louro (sem falar naquelas que usam lentes de contato azuis…) Que desperdício de tempo, dinheiro e auto-estima.

Mas no caso das atrizes brasileiras, o destaque para mim está no fato de serem referência, cobradas pelos pares ou até pelos maquiadores para esconderem que estão envelhecendo. É como se aceitar a passagem do tempo, reconhecê-la e valorizá-la fosse um absurdo. Envelhecer não é sinônimo de maldição. Achei muito linda a frase de Karin Rodrigues, 72 anos, ex-companheira de Paulo Autran: “Não posso investir numa guerra que poderia perder”. E é verdade. Olhe para mulheres que se submetem a cirurgias plásticas para esconder a idade. Parecem feitas de plástico, não têm mais identidade. Querem viver em um mundo de fantasia, ainda que outros fatores as forcem a se lembrar que não são jovens, por mais que a casca aparente o contrário.

(Veja matéria em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG83338-8055-519,00-LINDAS+E+EM+PAZ+COM+AS+RUGAS.html)

Em 2005, entrevistei a primeira mulher a chegar ao pico do monte Everest, a japonesa Junko Tabei. Quando chegou ao topo do mundo, em 1975, ela tinha 36 anos. Quando a entrevistei ela estava com 71, seguindo em frente com seu projeto pessoal: escalar a montanha mais alta de cada país. Perguntei-lhe se ela um dia se aposentaria das escaladas. Sua resposta foi: “Quando sentir que estou ficando fisicamente fraca e posso causar problemas para outros companheiros, então deixarei de escalar”. Ela não parou de fazer o que ama, estar nas montanhas se pendurando em cordas, porque completou xis anos e a sociedade dita que não se deve mais fazer certas coisas por isso ou porque sua filha se casou e daí virão netinhos (que ela ainda não tinha naquela época). Ela reconhecerá o momento de parar quando seu corpo lhe mostrar isso. E certamente se dedicará a outras atividades, pois pessoas assim não se contentam em ficar sentadas esperando a morte chegar.

Guardadas as devidas proporções com relação ao natural desgaste físico e, às vezes, mental que os anos trazem, a questão é que não deveríamos nos enterrar antes da hora nem deixar de sonhar, de querer, de se apaixonar, de transar, de viajar, de sermos produtivos. E acima de tudo, o ideal é termos orgulho do que somos, do que vivemos e nos perguntarmos se ao deixarmos este planeta, sentiremos que nossa passagem aqui valeu a pena, não apenas para nosso ego, mas para o pequeno pedaço que nele habitamos e para as pessoas com quem cruzamos. Nesse aspecto, rugas, plásticas, cremes, botox e lipoaspiração serão as coisas menos relevantes.

No fim das contas, a pergunta básica é “O que estou fazendo da minha vida?” e não “O que as rugas ou a idade ou os ditames sociais estão fazendo com ela?”. Ser ou não ser, eis a mesma shakespeariana questão cuja opção é e sempre será pessoal e intransferível.

Em Paranaguá, no litoral do Paraná, a atmosfera era de festa: mil balões de festa gigantes, cheios de gás hélio, coloridos, apontavam para o alto, enquanto dezenas de pessoas observavam atentamente os preparativos finais do padre Adelir de Carli, ajudado por fiéis, antes de partir para sua “aventura”. Por volta das 13h, com tudo pronto, os balões o içaram velozmente e aquele engenhoca na qual estava pendurado rapidamente desapareceu da vista de seus admiradores. Teoricamente, ele ficaria 20 horas no ar e seria levado por mais de 200 km pelo vento. De acordo com os planos, ele deveria voar o resto da tarde, toda a noite e madrugada e aterrissar na região de Dourados, Mato Grosso do Sul, bem longe do mar, por volta das 12h do dia seguinte. Cobrindo o acontecimento, uma repórter lhe perguntou se não era perigoso sair naquele momento, com chuva, vento e céu nublado, ao que ele respondeu que não, que em poucos minutos estaria acima das nuvens e ficaria tudo bem. Infelizmente, porém, o mau tempo e o vento soprando em direção contrária ao que o padre precisava, fizeram com que seu inconsistente plano fosse literalmente por água abaixo. Ele havia “planejado” sua “aventura” para ficar “20″ horas no ar para combinar com o dia “20″ de abril e apesar de toda a indicação contrária, não respeitou o limite imposto pela natureza.

Em seu primeiro contato, cinco horas depois de iniciar o vôo, informou que alguma coisa errada estava acontecendo, pois estava perdendo altura e sendo levado em direção ao mar. Para surpresa de todos, pediu também que alguém o ensinasse a usar o GPS! Pouco antes das 21h, fez seu último contato dizendo que cairia no mar. Naquele momento, ele estava a muitos quilômetros da costa e o vento fazia com que as ondas alcançassem até seis metros de altura. Imagine essa situação agravada pela escuridão. Isso sem contar que logo depois de deixar o solo ele havia subido a mais de cinco mil metros, invadido o espaço aéreo – com risco de ser atropelado por uma aeronave e provocar um acidente – e ter sentido frio de até menos 25ºC, enquanto sua roupa o protegia a, no máximo, menos 10ºC. Tomara que ele seja encontrado com vida. Até este momento, porém, 01h50 do dia 24 de abril, apenas os balões foram localizados em alto-mar.

Sua intenção era ultrapassar o recorde de um americano que havia ficado 19 horas no ar, levado por balões também. Antes disso, há registro de apenas um vôo feito pelo padre Adelir dessa forma, com duração de 4h15min. Muito pouca experiência para que ele se lançasse em outro tão mais longo, enfrentando noite e madrugada com mau tempo e sem apoio terrestre. Além disso, há três anos ele foi expulso por causa de indisciplina e exibicionismo da escola de vôo livre onde fazia curso, de acordo com seu ex-instrutor, Marcio André Lichtnow (leia sobre isso em http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/22/ult23u1981.jhtm). Entre outras questões apontadas por Lichtnow, padre Adelir não se interessava pelas aulas teóricas, “fundamentais para se compreender as questões meteorológicas”, exatamente o que pode ter contribuído muito para esse desastre. Ao que tudo indica, esse aspecto foi simplesmente ignorado por ele.

Essa história toda me fez pensar sobre o significado de “aventura”. A primeira tarefa para quem quer se aventurar, isto é, lançar-se em uma atividade que envolva riscos, na qual se vai participar pela primeira vez ou não, é pla-ne-ja-men-to. Planejar para quê? Para minimizar ao máximo os riscos envolvidos. Todas as possibilidades de não dar certo precisam ser consideradas e alternativas para resolvê-las precisam ser estudadas. Além disso, pesquisa e humildade fazem parte desse processo. Ouvir e valorizar pessoas mais experientes, ainda que não tenham feito aquela atividade específica, é fundamental. Veja o que o Lichtnow disse quando o padre lhe contou o que iria fazer: “(…) decolando dali [litoral] o único lugar que ele poderia pousar era na África do Sul, porque é para lá que os ventos levam. Mas ele disse que já havia estudado tudo e eu achei que era brincadeira”. A análise apresentada pelo instrutor foi simplesmente ignorada.

Pessoas com mais vivência geralmente já passaram por perrengues, sofreram com a inexperiência, vêem o que não é visto pelo menos experiente e podem ajudar muito no delineamento de estratégias melhores e mais seguras. Aventurar-se não é deixar sua vida por um fio para que aquilo lhe traga a alcunha de “corajoso” e/ou atraia a atenção das pessoas e da mídia. É saber calcular criteriosamente todos os passos e considerar as possibilidades de forma que haja começo, meio e fim de forma bem-sucedida.

Ao escrever isso não quero dizer que tudo vá acontecer exatamente como planejado, mas é possível, em nível macro, se ter uma idéia do todo, calcular o que pode acontecer e como lidar com o que pode sair muito fora do esperado. Por exemplo, se alguém se propõe a voar (de parapente, asa-delta, balões etc.) é preciso, no mínimo, que consulte o que a meteorologia prevê e planeje de acordo, além de precisar contar com apoio de terra efetivo para o caso de alguma eventualidade. Acontecimentos inesperados e acidentes são possíveis, às vezes as pessoas morrem ou ficam fisicamente deficientes por causa deles, mas é incrível comprovar estatisticamente o quanto há de falha humana quando eles acontecem. Teimosia, falta de planejamento, de treinamento ou de preparo físico, uso de equipamentos impróprios ou desgastados, desconsideração com relação aos avisos da natureza etc. são muito comuns.

O que o padre Adelir fez não deve ser chamado de aventura, mas de irresponsabilidade que, infelizmente, pode ter lhe custado muito caro. A falha de planejamento para realizar seu sonho não deve ser seguida, ao mesmo tempo em que a vontade de nos aventurarmos não deve ser sufocada por seu exemplo negativo. O que aconteceu a ele nos convida para a necessidade de termos mais seriedade e responsabilidade na preparação das atividades de aventura que queremos realizar. É preciso haver comprometimento pessoal e conscientização de que, entre tantos outros aspectos, compartilhar o que se planeja e estar aberto para ouvir opiniões – às vezes contrárias até – pode fazer muita diferença para o sucesso ou fracasso de um projeto, principalmente quando se é inexperiente.

(Fotos: Aman Morbeck – Por mais simples que seja a atividade de aventura, como no arborismo, atentar para as instruções de segurança e segui-las é fundamental para uma experiência prazerosa.)

A maioria de nós, brasileiros, certamente conhece um dos chocolates mais populares no Brasil, fabricado pela Lacta: o diamante negro. O que a maioria talvez não saiba é sobre a origem de seu nome, inspirado no apelido dado pelo jornalista francês Raymondo Thourmagem a Leônidas da Silva. Impressionado com a destreza do jogador negro do São Paulo Futebol Clube, esse jornalista já o havia apelidado de homem-borracha por causa de sua elasticidade.

Criador da jogada batizada como “bicicleta”, foi artilheiro da seleção brasileira de 1938, com oito gols marcados (quatro em uma única partida contra a Polônia), quando foi eleito o melhor jogador do mundial. Para muitos, sua destreza com a bola superava a de Pelé, considerado o melhor jogador do mundo por muitos anos. O problema é que no período em que Diamante Negro atuava os jogos não eram televisionados, por isso suas jogadas não foram perpetuadas nem sua habilidade pôde ser comparada.


Para homenageá-lo, em 1940 a Lacta lançou o chocolate de mesmo nome, pagou a ele dois contos de réis e nunca mais tocou no assunto. Desencanado, Leônidas da Silva deixou por isso mesmo. Mais tarde, tornou-se comentarista esportivo e atuou até 1974, quando foi obrigado a se aposentar por causa dos primeiros sintomas do mal de Alzheimer. A doença o foi debilitando aos poucos. Morreu aos 90 anos, em 2004, em uma clínica paulista, esquecido pelos torcedores e ignorado pelos fãs do chocolate da Lacta. Seu apelido, porém, será eterno nesse produto delicioso e bem-sucedido enquanto a empresa durar.

Para perpetuar a história do verdadeiro Diamante Negro, da próxima vez que você comprar esse chocolate, envie um pensamento carinhoso para o Leônidas e compartilhe essa história com seus amigos, principalmente se você for fã de futebol e admirar as jogadas de bicicletas nas partidas em todo o mundo.

(Fotos reproduzidas sem autorização dos sites www.saopaulinosnageral.com/?page_id=7 e www.museudosesportes.com.br/noticia.php?id=25934. Créditos não indicados por não estarem indicados nas publicações.)

Thai e Totchi curtem o sol no tapete da sala

Dois gatos dividem o apartamento conosco: Thai, um siamês de belos olhos azuis de um ano de idade, e Totchi, um vira-latinha charmoso de seis. Abandonados, cruzaram nosso caminho e hoje são muito bem cuidados, vivem confortavelmente, têm comida e água à vontade, carinho de montão e brinquedinhos espalhados pelos cantos. O apartamento todo é compartilhado com eles, menos o escritório. Isso porque Thai tem fixação por computador. Quer mexer nas teclas, tenta pegar o cursor na tela e também as letras que vão aparecendo à medida que teclo. Não tenho condição de trabalhar assim. Para evitar que entrem, há um portãozinho de metal entre os portais como se tivesse criança em casa.

Quando Thai foi adotado, há dez meses, ele estava sob a proteção da associação Adote um gatinho (www.adoteumgatinho.com.br), que havia resgatado seus pais, com a mãe grávida, de uma casa abandonada por seus donos. Por conta da desnutrição da mãe, os oito gatinhos nasceram fracos, raquíticos e com o sistema imunológico detonado. Quando vi a ninhada pela primeira vez, na casa da protetora que os havia recolhido, estavam todos em quarentena, cheios de micose, com várias falhas no pêlo. Gostei daquele gatinho de rabo comprido e disse que ficaria com ele, mas precisaria aguardar até ele ficar mais fortinho.

Poucas semanas depois, ele chegou. Totchi não estranhou em nada o novo morador. Na verdade, o adotou também. Só que ele começou a espirrar e ficar com o nariz entupido, os olhos lacrimejantes e prostrado. Andava um pouquinho, parava e se enrolava. Parecia gripe, mas era mais grave que isso. Pegou um vírus e ficou muito mal. Teve de ficar internado por três semanas, chegou a pesar 300 gramas, o que lhe rendeu o apelido de “Esqueletinho” na clínica veterinária onde estava, e eu não consegui pegá-lo no colo quando fui visitá-lo, de tão fraquinho e esquisito que estava. Ele não conseguia se alimentar sozinho e teve de tomar antibióticos fortíssimos, mas sobreviveu. Da ninhada, salvaram-se dois, ele e uma irmã.

Quando voltou para casa era outro gato. Virou um capetinha. Parecia que queria recuperar o tempo em que esteve impossibilitado de pular, correr, brincar e descobrir tudo, além de ter virado um esfomeado. Só que depois de uns meses ele começou a desenvolver um gosto gastronômico estranho por… papel higiênico! Ele corta uma ou duas tirinhas com a unha, come e vai embora. Outras vezes, dá umas mordidas no papel pendurado e faz cara de contente. Ele tem ração à vontade o dia todo e ainda ganha, uma vez por dia, uns biscoitinhos para gatos que ele adora e só come se for colocado no degrau mais alto de uma escada de três degraus que fica na cozinha. Cada um com suas manias…

Às vezes, saio de escritório e o vejo dormindo sossegadamente em algum lugar. Dali a pouco, escuto o barulho característico de sua unha cortando o papel. Parece que ele acorda e pensa que é hora de “beliscar”, comer uma coisinha leve. No começo, pensamos que ele podia ter algum problema ou que aquilo lhe faria mal, mas não, é apenas um gosto exótico. Ele completou um ano este mês, continua espoleta e alegre e adora atazanar o Totchi que, por ser mais velho, é mais pachorrento. Carinhosos, os dois querem ficar por perto todo o tempo. Cada um tem sua personalidade, seus dengos e forma de demonstrar carinho. Respeitamos suas individualidades e convivemos todos amorosa e harmoniosamente.

(Foto: Aman Morbeck – Thai, o siamês, e Totchi, o vira-latinha.)

Volto ao caso Isabella Nardoni, desta vez para comentar sobre o papel absurdo da imprensa nos últimos dias. Fiquei chocada com o caso sobre essa garotinha, tanto que escrevi sobre isso em outro post, e agora tenho ficado horrorizada com relação a invasão da imprensa em busca de audiência. Não é mais para informar que eles estão brigando, mas para alimentar a curiosidade mórbida com relação a esse caso. Ontem vi que o Terra TV havia disponibilizado para os internautas a filmagem da câmera interna do prédio onde o pai de Anna Carolina Jatobá mora. Ela e Alexandre Nardoni foram mostrados na garagem e dentro do elevador! Isso é informação? O que isso nos acrescenta? É horrível ver a imprensa tão sem limites assim. Quem disponibilizou essa gravação deveria ser indiciado também. Onde está o respeito pela privacidade? Isso está além de qualquer questão sobre se eles são ou não são responsáveis pelo que aconteceu naquela noite.

Isso sem contar que a TV Globo divulgou ontem, no Jornal Nacional, partes dos depoimentos oficiais de testemunhas porque teve acesso ao processo. Uau! Veja como a TV Globo consegue umas coisas tão difíceis! Mérito? Não, isso é pobreza, descaso, desrespeito. Que direito tem a imprensa de fazer isso? O delegado Calixto Calil Filho havia decidido manter o inquérito policial sob sigilo, mas quem respeita? E agora abro a página da globo.com e a chamada é que a pegada no lençol é da madrasta…

À medida que o cerco se fecha em torno do casal, a imprensa se regozija e posa de protetora da informação, de guardiã da verdade que precisa ser exposta. Exposta, sim, mas até certo ponto. Quanto mais as evidências apontam para uma possível definição desse caso horroroso, mais a imprensa nos faz o desserviço de transformar algo tão sério em circo e alimenta a possibilidade de uma não resolução disso, porque está dando de bandeja a chance de o outro lado criar também sua forma de dificultar algumas ações legais. A verdade é que tudo isso virou um grande jogo no qual a imprensa tenta faturar mostrando como as evidências incriminam o casal, a família do casal posa de perfeita e se aproveita dessa imprensa cruel para mostrar o lado bonzinho de cada um deles e quem vai ficar lamentando toda essa perda, ao quer parece, será apenas a mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira. Ela até agora é a única que parece não estar levando nenhuma vantagem com esse circo midiático. Por um lado, finalmente essa mídia sensacionalista está deixando-a em paz para vivenciar seu luto.

Em um dos posts que publiquei, ‘Que estranho prazer é esse?’, utilizei como exemplo sobre o assunto tratado a publicação de mau gosto e sem sentido da foto nua de Carla Bruni, ex-modelo, cantora e agora primeira-dama francesa. Dias depois, tirando proveito disso, a tal foto foi leiloada e arrematada por 91 mil dólares. O fotógrafo que a fez, o suíço Michel Comte, que por causa dela ficou conhecido internacionalmente da noite para o dia, parece que para compensar o que havia feito, comprometeu-se a doar o valor arrecadado a causas humanitárias. Para cumprir sua promessa, escolheu uma organização que coordena vários hospitais infantis no Camboja, no sudeste asiático, a Foundation Kantha Bopha (www.beat-richner.ch). Só que para surpresa geral, Beat Richner, pediatra suíço responsável por ela, simplesmente rejeitou a doação. Sua justificativa: por respeito aos pacientes. Ele não quis que a instituição fosse “misturada com o uso midiático da nudez de Carla Bruni. Além disso, no Camboja a nudez não é entendida como no Ocidente”.

Neste mundo onde vivemos, no qual as pessoas cada vez mais valem pelos cifrões que têm ou aparentam ter e com tantas outras tentando tirar proveito das situações para se dar bem, não pude deixar de admirar e aplaudir a decisão ética desse pediatra. A questão para ele não é receber doações sem perguntar de onde vieram, como se isso não tivesse importância, fechando os olhos para o que foi feito para aquele dinheiro chegar até a instituição, como se ele não tivesse machucado pessoas e como se, para justificar a necessidade de “crianças cambojanas pobres e doentes”, isso tudo devesse ser ignorado. Que lição para esse bando de hipócritas que querem se dar bem como “aparentemente” socialmente responsáveis. Espero que outras pessoas sigam o exemplo de Beat Richner, meu mais novo ídolo.

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